Comerciante que instalou mais de 200 câmeras para flagrar crimes em Vitória retira equipamentos após notificação por irregularidades
26/03/2025
(Foto: Reprodução) Câmeras ficavam em postes, mas não possuíam autorização formal da companhia de energia da cidade. Empresário Eugênio Martini mantinha os equipamentos há mais de 15 anos. Eugênio Martini, empresário responsável pela instalação das câmeras no Centro de Vitória
Carlos Alberto Silva/Rede Gazeta
Mais de 200 câmeras de videomonitoramento particulares estão sendo retiradas de postes do Centro de Vitória após uma série de reclamações de moradores e um ofício da concessionária de energia por irregularidades nas instalações. Os equipamentos eram instalados e mantidos há mais de 15 anos pelo empresário Eugênio Martini, morador da região há 40 anos.
As câmeras foram instaladas por Martini para flagrar crimes nas lojas dele e de outros comerciantes do Centro Histórico da capital capixaba. Mas, segundo a EDP, concessionária de energia elétrica, os equipamentos foram instalados sem autorização e com ligações irregulares.
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De acordo com a companhia, a retirada cumpre com resoluções da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), voltadas para “qualidade e segurança da rede elétrica e da integridade física das pessoas”.
O Ministério Público do Espírito Santo foi provocado sobre o tema e pediu a abertura de um inquérito pela Polícia Civil.
Nesta quarta-feira (26), o g1 conversou com o empresário. Ele contrariou a informação da EDP e afirmou que a situação das câmeras era regular.
Câmeras para inibir criminalidade
Segundo Martini, a instalação das câmeras começou quando ele trabalhava com sistemas de telefonia no Centro de Vitória. Assustado com uma onda de assaltos e furtos, ele decidiu, por conta própria, instalar os equipamentos.
“Entendi que era o ideal. Comecei a resolver meus problemas para inibir a criminalidade e passei a instalar em outros pontos a pedido de outros empresários. Daí, fui instalando nos pontos públicos com maior incidência de crimes, tudo isso ligado à uma rede de monitoramento na minha loja e na minha casa”, explicou Martini.
Toda essa rede integrada era instalada com facilidade pelo empresário, já que possuía experiência com os cabos de postes por ter trabalhado no ramo de telefonia.
Empresário deve retirar mais de 200 câmeras do Centro de Vitória
A instalação ao longo dos anos flagrou furtos, assaltos, acidentes, pichações e outros atos de vandalismo. Martini disse que as imagens auxiliaram na resolução de crimes e na devolução de objetos e documentos perdidos pelas ruas.
“As pessoas perdiam as coisas e procuravam as imagens para saber onde poderiam ter deixado cair uma carteira, por exemplo. Eu disponibilizava os vídeos até mesmo para a Guarda Municipal de Vitória em um grupo de mensagens criado por eles”, disse.
Questionada sobre as alegações do empresário sobre a cooperação com a Guarda Municipal através do compartilhamento das imagens e a possível ação coordenada com as câmeras instaladas por Martini, a Prefeitura de Vitória não respondeu até a última atualização desta reportagem.
Postes não podem ser usados para fins particulares
As ligações dos aparelhos eletrônicos eram feitas em postes de vias públicas, de acordo com a concessionária de iluminação, sem a instalação correta de energia, já que não era feita uma solicitação formal à companhia fornecedora, neste caso, a EDP.
No final de fevereiro deste ano, a empresa enviou ao empresário um documento solicitando a retirada das câmeras, apontadas como fruto de “ocupação clandestina” da infraestrutura da concessionária.
A companhia pontuou ainda que apenas empresas de telecomunicações de interesse coletivo possuem o direito ao compartilhamento dos postes de distribuição de energia elétrica. Este não era o caso de Martini.
Notificado, empresário admitiu o erro
Eugênio começou a desinstalar as câmeras no último domingo (23)
Arquivo pessoal / Eugênio Martini
Após receber o documento, Martini admitiu ter errado nas instalações e se antecipou a outras reclamações.
“Eu não cobrava nada de ninguém, só pedia os materiais e dava a mão de obra para instalação. Desde quando coloquei a primeira câmera, me diziam que eu não poderia filmar, mas a necessidade pela segurança foi exigindo essas instalações”, contou.
Segundo Martini, as principais reclamações eram por causa de câmeras apontadas para janelas de casas e apartamentos na região, em que os moradores se sentiam com a privacidade invadida.
Ainda assim, o comerciante disse que nunca havia recebido, de forma oficial, nenhum processo por parte de moradores ou outros empresários.
Porém, a EDP afirmou ter recebido reclamações a respeito das câmeras do empresário.
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MP pede que polícia investigue o caso
A situação chegou ao conhecimento do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) que, através da Promotoria de Justiça Criminal de Vitória, solicitou a instauração de um inquérito à Polícia Civil.
A ação, segundo o MPES, é voltada para verificar o uso de energia irregular por parte do empresário e uso e compartilhamento de imagens sem autorização.
“O procedimento foi instaurado a partir de manifestações recebidas pela Ouvidoria do MPES e do relato do então vereador de Vitória André Moreira. No momento, a instituição aguarda a conclusão do inquérito policial pelo órgão competente para a adoção das demais providências”, destacou o órgão.
Martini foi ouvido pela Polícia Civil. Ao g1, ele disse que busca outros meios para retomar o projeto, ainda que com outras ferramentas.
“Não tenho como refazer tudo. Mas muita gente me ligou para saber o que poderia ser feito. Minha ideia hoje é formalizar as instalações e manter uma rede integrada de segurança com a prefeitura”, disse.
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